"NÓS TEMOS A FORÇA PARA CRIAR ESTE MUNDO!"
A HISTÓRIA DA AJPAZ

 

2005 – Acções Glocais, Feministas e Pacifistas
A AJPaz, ao longo dos últimos anos, tem vindo a optar por se repensar e transformar a si mesma, para chegar cada vez mais perto da sua Missão. Este repensar e transformar abriram um processo que já produziu muitas mudanças, e que provavelmente ainda não terminou, porque o Mundo ainda não é Outro.
A dinâmica de transformação que temos vindo a viver, não diz só respeito aos nossos campos de acção e intervenção pública e socio-política, mas também à amplitude do trabalho realizado e das parcerias formadas. Durante muitos anos, definimo-nos como pacifistas e mantivemo-nos essencialmente ligadas/os à juventude, enquanto actor e enquanto público. Hoje, as nossas reflexões e as nossas opções ampliaram as raízes onde estão ancoradas a identidade e a intervenção da AJPaz. Por isso, a juventude não é mais suficiente para nos descrever e nos apresentar ao Mundo. Neste momento, mais do que mudar um nome, podemos afirmar que cada vez mais as nossas convicções nos identificam com um carácter pacifista e feminista e são estas as principais lutas travadas no nosso dia-a-dia.

Queremos cada vez mais e com mais exigência trabalhar com as Mulheres e as Comunidades Glocais, aqui e em outros lugares do Mundo. As jovens e os jovens continuam a ser um público com que a AJPaz trabalha e quer trabalhar, mas acreditamos que as/os protagonistas são igualmente múltiplas/os e diversas/os, como o são as Lutas.

Queremos continuar a investir em acções menos “mediáticas” ou visíveis, mas que se revestem de uma grande importância e potencial, visto que, afinal, é com as pessoas concretas que tudo começa. É com as sujeitas e os sujeitos, feitas/os invisíveis, que aumentamos o potencial de mudança e transformação das realidades, porque elas/es, melhor que ninguém, sabem que este Mundo vai mal e sabem o que lhes falta em Dignidade e Bem-Estar.

Queremos continuar a aprofundar a nossa política internacionalista que é de permanente promoção de múltiplos diálogos e solidariedades, além de todas as barreiras, entre Pessoas, Povos e Comunidades. São diálogos e acções responsáveis e justas que procuramos tornar transversais a todo o trabalho realizado. Este internacionalismo solidário, como costumamos designá-lo, é um dos alicerces da construção da PAZ no seu sentido mais amplo.

Queremos contribuir e construir a Paz e uma Cultura da Paz. Esta é uma PAZ que não procura apenas a ausência de guerras ou conflitos armados. A PAZ que queremos ultrapassa a dimensão dos conflitos violentos, dando conta de muitas outras violências e daquilo que as pessoas necessitam para viver bem e com abundância. A construção de uma PAZ só é possível se a Dignidade e os direitos das Mulheres, dos Homens e das Criaturas forem respeitados; se os preceitos de Igualdade, do Direito à Diferença, da Justiça Social, Cognitiva e Sexual, da Paridade, da Democracia e da Participação forem assumidos e defendidos na sua plenitude. A construção de uma PAZ só é possível quando o tão desejado desenvolvimento sustentável e sustentado para todas/os sair dos estudos, dos papers e dos livros que todas/os lemos e com os quais concordamos e se tornar uma prática, uma realidade, um quotidiano.

Há cerca de um ano, deparávamo-nos com uma grave e ameaçadora crise financeira. Passado um ano e meio, a situação é ligeiramente mais confortável. Porquê? O que é que nos permitiu não só sair da situação financeira em que nos encontrávamos, mas também alargar as nossas parcerias, implementar novos projectos e trabalhar com outros públicos e territórios?
A resposta mais justa e acertada não será, com certeza, a sorte ou o puro acaso, mas sim os valores e as convicções que regem todo o nosso trabalho e acções. Por outro lado, uma estratégia de rigor e de busca concertada e responsável de novos campos de intervenção e novas parcerias estratégicas permitiu-nos abrir algumas janelas e oportunidades que temos que consolidar, ampliar e cuidar. Parece-nos que é, sem dúvida, a convicção, o rigor, a coragem, o profissionalismo e a perseverança que nos permitem alcançar os nossos objectivos e produzir resultados, mesmo que estes não sejam visíveis assim, a olho nu, num curto prazo.
São estes os valores que procuramos que estejam presentes em todas as actividades que desenvolvemos nas mais diversas áreas, sob as mais diversas formas.

Como podemos tornar possível abranger um tão vasto conjunto de áreas de trabalho e procurar ter impactos a diversos níveis num território tão vasto e diversificado?
Em primeiro lugar, é necessário não esquecer que optámos por viver numa pequena comunidade rural e que é dessa escala local que partimos para trabalhar a nível regional, nacional e internacional. Em segundo lugar, porque procuramos uma coerência interna e fazer emergir um fio condutor que reja todo o nosso trabalho.
É por este motivo que consideramos, por exemplo, que a capacitação e a formação local de jovens mulheres não poderá ser dissociada da análise e da situação e do estatuto das mulheres na nossa sociedade. Do mesmo modo, o que procuramos com as actividades com um carácter mais internacionalista, como Seminários Internacionais ou Campos de Trabalho, é que produzam resultados que afectem e envolvam a comunidade em que estamos inseridas/os. E, finalmente, porque a diferença tem de ser feita e tem de ser sentida, também queremos questionar e reconstruir as economias. Queremos economias sociais e solidárias. Elas são fundamentais para garantir a Dignidade, a Participação de todas e todos, o envolvimento comunitário, a Democracia e a (Re-) Distribuição de Recursos.

Estamos persuadidas/os que é necessário trabalhar em diversas escalas (do local ao transnacional), pôr em diálogo conhecimentos e práticas, resistir à nossa própria frustração e às nossas expectativas.
São estes os valores que queremos manter no futuro e através dos quais pretendemos ultrapassar as dificuldades com que nos deparamos no dia-a-dia. Convencer financiadoras/es da pertinência e da inovação dos nossos projectos e investir as nossas energias mais em acções que em burocracias, são já dois dos desafios que vivemos.

O nosso maior desafio é sermos aquilo que sonhámos ser e ser tão autênticas quanto os nossos sonhos nos exigirem, sendo profissionais, activistas, dirigentes, actrizes e actores sociais que idealizam, projectam, executam e implementam passos concretos para um Mundo responsável.

 

1973 – 2005 – Acções Internacionalistas e Pacifistas
Youth Action for Peace é um Movimento europeu bastante antigo: nasceu em 1923.
A história fundacional do YAP diz que
durante a Primeira Guerra Mundial, alguns jovens soldados da Alemanha e da França, que lutavam na frente de guerra, foram convidados para se encontrarem numa Igreja para celebrarem o Natal juntos.

Depois deste encontro, voltaram para a linha de guerra e tiveram de disparar uns contra os outros, sob ordens de comando dos seus superiores. A história também diz que
alguns destes jovens soldados, antes de retornarem às trincheiras, prometeram uns aos outros parar de disparar, e resolveram desertar e começar um movimento que almejaria a Paz para toda a Europa. Este pequeno grupo de desertores auto-proclamou-se como ‘Chevaliers de la Paix’ (‘Cavaleiros da Paz’) e a sua convicção principal era a seguinte:

«Não podemos disparar contra alguém ou matar alguém que conhecemos e que se tornou noss@ amig@!»

O que talvez seja mais interessante neste conceito de
CONSTRUÇÃO DA PAZ é que pressupõe como primeiro passo, ou seja, ATRAVESSAR FRONTEIRAS, CONHECER AS PESSOAS DO OUTRO LADO DA ‘LINHA’ para depois CONSTRUIR UMA RELAÇÃO DE AMIZADE. Edificante, como é qualquer história fundacional, coloca-nos claramente, perante todos os dilemas da CONSTRUÇÃO DA PAZ e da PREVENÇÃO DE CONFLITOS.

A missão destes ‘Cavaleiros da Paz’ não teve grande sucesso. Não temos qualquer registo ou testemunho de grandes mudanças nas relações externas destes dois países e alguns anos depois, outra guerra sem precedentes começou, mais ou menos na mesma região da Europa!!!

No entanto, eles não pararam as suas actividades pela Paz e pela Prevenção de Conflitos. Durante a Segunda Guerra Mundial, adoptaram um outro nome – Christian Movement for Peace (CMP) / Movimento Cristão para a Paz (MCP) - e alargaram a rede para a Europa Ocidental (Bélgica, Suíça, Holanda, Inglaterra e Itália).
Nesses tempos, usando a Suíça como caminho principal para a liberdade,
o MCP envolveu-se na luta contra o fascismo e o o nazismo, ajudando judias e judeus a esconder-se e a fugir dos regimes fascistas e nazistas que governavam a Europa. Segundo a nossa história, é neste período que as mulheres se tornaram muito importantes nos processos de tomada de decisão e, em consequência, a sua actividade política dentro do movimento tornou-se incontornável. Grandes líderes mulheres, como a Madame Kurtz, eram também conhecidas como grandes militantes pela paz e pela democracia.
A construção da Paz nunca foi uma questão pessoal, nem nunca se baseou apenas em emoções e amizades.
O Movimento assumiu a Paz como um problema estrutural das sociedades e a acção positiva em seu favor teria que combater qualquer opressor e ser encarada como uma actividade de prevenção de conflitos. O principal modo encontrado, e que era por vezes arriscado, foi a tomada de posições públicas em relação a regimes políticos e a tentativa de coerência ideológica, através da acção directa. Este discurso/acção pela Paz defende, cada vez com maior firmeza que a guerra é a irracionalidade da ambição pela dominação sobre os povos e a natureza, do sistema societal em que vivemos hoje.

Durante os anos 60 e 70, as mudanças que aconteceram no Mundo trouxeram para a agenda do YAP um outro problema: a Libertação dos Povos. Pela primeira vez, o Movimento atravessou oceanos e tornou-se um Movimento Internacional, e não apenas europeu. Uma ‘branche’ foi criada no Canadá e outra na África do Sul.
A cooperação com organizações de base com vocação libertária foi desenvolvida em países como a Palestina, Argélia, Salvador, Malta, Líbano, Guatemala, Timor-Leste, Irlanda do Norte, Namíbia, Sahara Ocidental, Eritréia. Muitas vezes estes contactos foram mediados pelo que se chamam, em geral, ‘movimentos cristãos progressistas’. Ao Movimento foram pedidas, por estas organizações de base, duas coisas: que denunciasse a sua opressão tanto quanto possível, usando os meios de comunicação ao seu alcance e que providenciasse arenas ou fóruns internacionais onde as/os suas/seus líderes pudessem fazer os mesmo pela sua própria voz.

Almejando a Paz, muitos estudos, muitas manifestações e acções directas na rua, muita informação, muitos seminários, muitas visitas de estudo, muitos intercâmbios, muitos projectos de desenvolvimento, muitos contactos foram desenvolvidos e implementados, desde então.

Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, a Hungria, a Roménia, a Letónia, a Rússia e a Ucrânia aderiram ao Movimento, que não resistiu à entrada de tantas novas e múltiplas identidades, e que acabou por mudar o seu nome para ‘Acção Jovem para a Paz’, depois de mais dez anos de discussão e de debate (começados muito antes da Queda do Muro de Berlim), sobre a nossa especificidade e a nossa missão neste Mundo sempre tão novo e tão complexo.

Esta é, de modo resumido, a história ‘internacional’ do Movimento de que a AJP faz parte desde 1973...até 2004

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